Caminhar feliz

Caminhar feliz

 

 


Caminhar feliz

 

Chuang Tse

O Caminhar feliz
 
Cada pessoa é o que devia ser e pode viver com igual felicidade enquanto viver ajustada à sua própria natureza. Não há pessoas que sejam superiores e outras inferiores quanto a isso.
Há pessoas cuja natureza os torna aptos a assumir cargos de chefia, outros cuja natureza faz deles bons negociantes, bons artesãos ou bons funcionários. Há quem tenha vocação para dedicar a sua vida a ajudar os outros e quem tenha jeito para pensar ou para investigar tudo.
Desde que respeitem a sua natureza, todas as pessoas podem fazer o que têm a fazer, com igual felicidade e sucesso no que fizerem.
Mas existe um limite próprio para cada uma a partir do qual tudo mais que possa ser desejado apenas levará a lamentações. Quem quer mais do que lhe é dado sofre inutilmente sem que ninguém o esteja a castigar. Quando nos prendemos demasiado às coisas, sentimos perdas e ganhos; e a alegria e o sofrimento são o resultado de perdas e ganhos. Só quem larga essas amarras se pode sentir verdadeiramente feliz. A única liberdade a que os homens podem aspirar tem que estar inserida dentro dos limites naturais da sua condição humana e da sua natureza. Só devemos tentar fazer o que podemos realmente fazer. A nossa liberdade de acção tem limites.

Quem não gosta do que tem, porque pensa que podia ter melhor, é desagradecido e é estúpido. Abdica da única liberdade que um Homem pode ter para optar em vez disso pela ansiedade constante de tentar ter o que nunca vai ter. Quem não gosta do que é, acabará por passar a sua vida frustrado, tentando ser o que nunca vai ser.

Aqueles que aceitam o curso natural das coisas ficam sempre tranquilos quer nas ocasiões alegres quer nas tristes. Quem apenas gosta da felicidade, sofrerá com a tristeza. Quem aceita com tranquilidade a inevitabilidade da morte, sabe tirar melhor proveito da vida. De que serve não a aceitar? Querer ter o que se não pode ter é ficar preso para sempre. Quem apenas gosta da vida, sofrerá com a morte. Quem apenas gosta do poder, sofrerá com a sua perda.

O Imperador Yao, depois de uma visita aos quatro sábios da montanha de Ku Yi, esqueceu o seu Império. Descobriu que não precisava dele. E reinou e manteve um governo perfeito dentro dos quatro mares. Embora se sentasse no trono e controlasse tudo, não havia nada que pudesse perturbar a sua felicidade. E aquele que não precisa do império é exactamente aquele que o império necessita como imperador.

Hui Tse disse a Chuang Tse: «O rei de Wei mandou-me algumas sementes de cabaça. Plantei-as e elas deram um fruto de tal tamanho que podia conter cinco alqueires. Usei-a para levar água, mas ela não era suficientemente sólida para aguentar tanto peso. Cortei a cabaça em duas partes para fazer conchas mas estas ficaram com profundidade a menos para levarem qualquer coisa de útil. Era uma coisa realmente enorme mas, como era inútil, parti-a aos bocados.»
Chuang Tse respondeu «Porque não pensaste em usá-la para poderes com ela flutuar em rios e lagos? Em vez disso, ficaste-te por te queixar que ela era inútil para levar alguma coisa dentro dela. Acho que a tua mente é bastante confusa.»

Hui Tse disse a Chuang Tse: «Tenho uma árvore grande, a que chamam um ailanto. O seu tronco é tão irregular e tem tantos nós que nem um carpinteiro o consegue medir com uma linha. Os seus ramos são tão retorcidos que o esquadro e o compasso não podem ser usados nele. Está à beira da estrada, mas nenhum carpinteiro olha para ela. »
Chuang Tse disse « Pois se tens uma árvore grande e ficas ansioso por pensares que ela é inútil, porque não a plantas num terreno espaçoso, selvagem e árido? Poderás para sempre passear à sua volta e dormir em paz debaixo dela. Porque nunca nenhum machado lhe encurtará a vida. Como não tem nenhuma utilidade para os outros, nunca correrá o perigo de que lhe façam mal. »

Cada pessoa, ou cada coisa, tem a sua Virtude.
A sua utilidade ou inutilidade depende do uso que se lhe dá.
E a inutilidade pode trazer muitas vantagens!